Se você preferir em vídeo:

Primeiro vamos entender a banda larga fixa.

A banda larga é um tubo ligando seu dispositivo a outros. É literalmente como se fosse um tubo físico, oco, onde cabe, digamos um cilindro de 10 centímetros de diâmetro. Só que o tubo é de fibra ótica, cobre ou ondas de rádio e os cilindros de mensagens tem 10, 30, 50, 100 mega bits. O tubo leva um cilindro por segundo.

Se você enviar e receber cilindros continuamente você usará ao máximo seu tubo, mas isso não aumenta ou diminui o desgaste dele. Se você decide passar uma hora sem usar o tubo não faz a menor diferença para quem o alugou para você, afinal ele continua tendo que estar lá.

Pode-se dizer que, lá na frente, tem centrais de redistribuições dos tubos que conseguem processar 5 tubos de cada vez ainda que recebam 10, mas nesse caso, quem te alugou o tubo deveria ter alugado para apenas 5 pessoas ou melhorado a central distribuidora de tubos dele, do contrário simplesmente é mentira que ele te alugou um tubo. Na verdade ele só podia te oferecer meio tubo.

Isso até pode ser feito porque as pessoas tem tubos de tamanho dez, mas usam só metade da capacidade do tubo por exemplo, mas quanto mais consumimos música, vídeo, HDs na nuvem e navegamos por páginas ricamente ilustradas ou baixamos jogos, mais chegamos perto do uso máximo do nosso tubo o tempo todo.

Essa comparação ficou clara? Podemos recorrer à eletricidade ou à água como alguns fizeram.

A eletricidade é produzida em usinas e jogada nos tubos de energia, ou seja, a rede elétrica. Você não paga pelos fios, você paga pela eletricidade que chega por eles, está bem claro?

A “eletricidade” da Internet é o conteúdo, como esse post que você está lendo e que eu te entreguei de graça. Eu pago para usar um “tubo” de Internet e pago para ele ficar armazenado em um hospedeiro que paga por “tubos”, assim como você que paga por “tubos” para receber esse conteúdo.

As provedoras de acesso não podem te cobrar pela energia pois não são elas que produzem o conteúdo. Elas te cobram pela capacidade dos fios que chegam em sua casa. É que na rede elétrica a gente não paga pelos cabos, esse custo está embutido no custo da energia.

Resumindo: as provedoras de acesso te alugam “tubos” e podem te cobrar pela capacidade de trânsito de “energia” ou no caso, de dados. Mas não faz sentido ela te cobrar pelo volume de dados produzidos por outras pessoas ou empresas que transitaram por esses tubos.

Mas não é tendência global?

É verdade que nos EUA, Canadá e outros países algumas operadoras praticam limites de franquia (bandwidth cap se você quiser buscar no Google), no entanto…

    1. Elas estão sem desculpas lá também: Cable industry finaly admits that data caps have nothing to do with congestion (or fairness)
    2. Já está ficando claro para todos que a motivação real é obter mais lucro investindo menos. Não vamos copiar o que está errado, não é?

As franquias e custos de Internet lá são absurdamente menores! Com 6% do salário mínimo se obtém uma banda larga de 100Mbps e 500GB de franquia. Mais 2% do salário mínimo e você tem franquia ilimitada. Aqui uma banda muito menor custa 30% do salário mínimo.Existe um mercado competitivo com dezenas de provedoras de acesso que oferecem planos sem limite de franquia

O que dá para fazer com os limites que seriam praticados no Brasil?

Na real? Quase nada. Mesmo pagando pelo pacote mais rápido que dá uns 130GB de dados por mês para uma única pessoa que trabalha umas 4h por dia, assiste um episódio de série por dia útil, escuta um pouco de música e navega moderadamente provavelmente esgotaria a franquia antes do fim do mês.

E quase sempre tem mais de uma pessoa conectada na mesma banda larga…

Dê uma olhada no artigo Quanto você consome de Internet? do Adrenaline e no vídeo (basicamente a mesma coisa que o texto):

Ou seja, não é uma questão dos produtores de vídeo para Youtube ficarem com problemas, todos nós teremos dificuldade para fazer o mínimo que fazemos hoje.

Se você é uma pessoa rica e acha que o “povão” não usa Internet e as teles tem que gastar uma fortuna para construir infraestruturas de 100Mbps para eles usarem só 1Mbps 1h por dia, bem… Acho que você precisa conversar com caixas de mercado, lixeiros, office boys e pessoas de outras profissões estigmatizadas como “de pobre”.

O que você pode/deve fazer?

Várias pessoas tem sugerido usar muito a Internet para mostrar que a média de uso no Brasil não é tão baixa. Me parece uma estratégia ingênua pois as médias apresentadas são tão irreais que duvido que tenham sido medidas de fato. As teles não estão preocupadas com isso.

O que você pode fazer é:

  • Se informe lendo outros artigos como esse, vendo vídeos, procurando boas publicações (tem alguns links mais abaixo)
  • Comente com os amigos online e offline
  • Você tem algum espaço público onde pode se expressar? Twitter? Blog? Artigo em fanzine? Banco no meio da praça? Fale. Informe os outros, convide-os a pesquisar.

Tem saída?

Para muita gente não. Eu moro em um bairro nobre do Rio de Janeiro e tenho duas, é DUAS opções de banda larga. Ambas prestes a praticar limite de franquia.

No entanto você pode ser uma das pessoas felizes que tem alternativas, há inclusive pequenas provedoras de acesso disponíveis. A propósito… As duas bandas largas mais velozes do Brasil são de empresas assim, ou seja, nenhuma das grandes teles. Confira no Ranking Minha Conexão.

Você também pode ficar de olho em listas com provedores que se comprometeram a não impor limites de franquia como a GitHub Internet sem limites.

Acabou a Internet Brasil para sempre?

Minha hipótese, à luz desse estranho viés memético, é que não. O que está realmente em risco são as teles. Explico.

A economia global caminha rapidamente para a produção e consumo de conteúdo que constrói gigantes como Facebook, Netflix, Google, Dropbox, Apple, Microsoft, empresas de Games. Cada um desses negócios é muitas vezes maior do que praticamente qualquer empresa de telecomunicações.

Se o plano das teles for colocado em prática todas essas empresas e diversos outros setores da economia (ah! temos bancos e comércio online!) terão que se mobilizar para criar soluções de Internet com franquias aceitáveis ou, a médio prazo, sem limite de franquia. Talvez surjam até soluções gratuitas “lentas” de 10Mbps sustentadas em parte por quem pagar. Temos que lembrar que o lucro de uma tele gira em torno de 90%. Se o lucro for zerado contando-se com o que virá do próprio tráfego de dados podemos ter, pelo menos, serviços muito mais baratos. Acha viagem? Dê uma olhada nos projetos Terragraph e Áries do FB.

Se o plano das teles não der certo elas ainda estão em maus lençóis pois, no mundo inteiro, estamos percebendo que esse serviço de “tubos” deveria ser como na eletricidade, ou seja, você paga pelos dados a quem produz os dados e não para os donos dos fios (no caso da eletricidade é a mesma empresa, mas não no caso da Internet).

Teorias da conspiração

As primeiras teles a falarem em limite de franquia vendem TV a cabo, logo elas querem que você pare de usar Netflix e Youtube para assinar as TVs delas.

Acho uma falta de respeito considerar que os diretores e estrategistas dessas empresas são tão simplórios, é claro que as pessoas acostumadas com Netflix jamais voltarão para TV síncrona, essa que você tem que correr para casa para chegar a tempo de ver o programa.

Fico com a hipótese mais comum mesmo, de que querem investir o mínimo para ganhar o máximo.

Algumas comparações mais coerentes

Comparar o volume de dados que transita pela sua conexão com água e energia elétrica, como expliquei acima, não faz sentido, mas com o que se parece então a Internet? Vamos reunir alguns exemplos aqui!

Trem ou metrô
(ônibus não)

Considerando que os trens andam sempre com T minutos entre um e outro a capacidade de transporte por ferrovia ou metrô é sempre a mesma, digamos 100P pessoas por hora.

No rush tem 1000 pessoas tentando se locomover por hora e aí fica tudo congestionado. Às, sei lá, 22h30 tá cheio de lugares vazios nos vagões.

A comparação aqui seria que a culpa do congestionamento é das pessoas que vão e voltam do trabalho e as “boas” pessoas são as que usam o metrô fora do horário de rush.

Observe-se que o gasto dos trens cheios ou vazios não é tão diferente ou certamente já teriam passagens mais caras para o horário de pico (espero que não me ouçam!)

TV a Cabo

Seu prédio tem 30 apartamentos e apenas uma TV para cada um, mas a provedora de TV coloca uma antena ou cabo para cada 5 apartamentos.

Quando todo mundo chega em casa e liga a TV o sinal fica horrível, claro, porque fica dividido por 5 TVs.

Você reclama e a resposta é que você deve combinar com seus vizinhos para não ver todos ao mesmo tempo.

Quando você observa que o contrato diz que você está pagando uma antena ou cabo para você e não 1/5 eles dizem que… Bem, eles não dizem nada, só repetem que fazem assim nos EUA também (ou seja, consumidores americanos também podem ser enganados…)

#InternetJusta – Youtube (mas use no Twitter etc também)

Ação de Youtubers contra o controle de franquia de Internet no Brasil

Fontes e artigos

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