A primeira vez que escrevi aqui sobre aplicativos de mensagem foi em 2017 e já sugeria ir além do WhatsApp.

Por incrível que pareça não mudou muita coisa de lá para cá: o WhatsApp aumentou seu alcance em quase todos os países do mundo (artigo da NordVPN), alguns programas menos populares deixaram de existir, mas os principais continuam firmes e fortes ao lado dos três mais usados.

Já escrevi outros posts sobre o assunto como O melhor aplicativo de mensagens do mundo, O que o Facebook vai fazer com os seus dados do WhatsApp, Privacidade em conflito (onde falo nos modelos de negócios e estratégias de influência dos usuários) e De onde o Signal tira dinheiro e mais alguns.

Então por que decidi escrever mais um post?

Em primeiro lugar porque uma pessoa me chamou a atenção para uma nova bifurcação do Signal que preenche uma lacuna deixada pelo fim de outros aplicativos (mais sobre isso adiante), em segundo lugar, porque a diversidade de meios de comunicação é importante e, finalmente, existem diferentes necessidades de privacidade de acordo com o tipo de atividade. Jornalistas e até pessoas cientistas ou médicas podem precisar de mais privacidade já que se multiplicam no Brasil e nos EUA grupos violentos que ameaçam essas pessoas.

Primeiro: Critérios

A maioria dos artigos avalia a facilidade de uso, a qualidade das ligações de áudio e vídeo, recursos etc. Todavia esses não me parece serem os principais critérios visto a quantidade de pessoas que reclama da “leitura da mente” dos anúncios.

Assim o primeiro critério que devemos ter em mente é: qual é o modelo de negócios do serviço.

Os aplicativos da Meta e Google precisam transformar nossos dados, conexões e comportamentos em fonte de conhecimento para obter mais lucro. Seja fazer propaganda para nós para quem pagar por isso, como no caso da Cambridge Analytica, seja para descobrir que características são mais desejáveis em produtos existentes ou até para nos deixar mais suscetíveis a novos produtos que geram necessidades que não existem de fato.

Empresas como a Wickr oferecem versões gratuitas que são mantidas por versões comerciais do ambiente de comunicação e nesse caso é essencial que elas realmente não coletem nossos dados. O Telegram caminha para um modelo semelhante fazendo propaganda apenas em grupos ou canais comerciais com anúncios direcionados pelos administradores e não por algoritmos baseados no rastreamento dos usuários. O Viber tem um modelo de negócios semelhante.

Outro modelo é o financiado pela sociedade civil e organizações, como é o caso do Signal, que também precisa garantir o mínimo de rastreamento dos nossos dados possível para manter os investimentos.

Temos ainda outro modelo adotado pelo Session, que utiliza uma rede descentralizada que se viabiliza economicamente de outras formas para manter a infraestrutura (artigo nas referências ao final).

Um outro modelo é o adotado pelo Silence, que é um aplicativo OpenSource que não precisa de infraestrutura já que usa a de SMS dos celulares para trafegar mensagens criptografadas com o algoritmo do Signal (de longe o mais usado nos programas de mensagem instantânea) e portanto pode ser gratuito sem sugar os dados dos usuários.

Resumindo: Devemos levar em consideração três critérios ao escolher nosso aplicativo de troca de mensagens, do mais importante para o menos importante.

  1. O modelo de negócio do aplicativo
  2. O grau de privacidade que precisamos
  3. Os recursos oferecidos

Dito isso vou separar os aplicativos pelo segundo critério: o tipo de uso. Lembrando que o WhatsApp entra como o inevitável dado o nível de adoção na maior parte do planeta e por isso não o citarei.

Privacidade para falar com amigues

Sei que a maioria das pessoas usa o WhatsApp ou algum outro programa da Meta, dona do Facebook, mas também sei que quase todo mundo reclama ou se incomoda quando os anúncios parecem ler nossas mentes e, lamento dizer, não é ouvindo o que falamos perto dos nossos celulares que isso é feito simplesmente porque é muito mais eficiente cruzar os dados das pessoas com quem falamos, links que clicamos em mensagens no WhatsApp, empresas com que nos comunicamos via WhatsApp etc.

Por isso me reservo ao direito de só usar o WhatsApp quando é inevitável e usar outros como o Telegram para conversar com o pessoal mais próximo. Isso me torna menos analisável pelos algoritmos de propaganda e, mais importante, pelos que tentam influenciar nosso viés.

A popularidade do aplicativo é importante para que não acabemos com 10 aplicativos instalados (uso 4) para 10 grupos de pessoas, né? Então vai depender um bocado da região onde você ou seus contatos vivem. Vou colocar aqui alguns dos principais, mas é uma decisão para você e seus amigos:

  • Telegram
  • Signal
  • Viber
  • Discord (muita gente usa na área de desenvolvimento de software além de games)
  • Messenger ops! É da Meta! 😉

Privacidade para negócios

Aqui podemos ter dois tipos de aplicativos:

  • Os que tem versões gratuitas limitadas para atender pequenas equipes e oferecem uma versão comercial para quem precisa de mais recursos ou de equipes maiores;
  • Aplicativos de comunicação que podem ser usados realmente como um substituto dos mensageiros pessoais, mas oferecem muito mais segurança em troca de serem um pouco mais chatos de usar.

No primeiro grupo temos o Wickr (que a Amazon comprou, e isso acende uma luzinha de alerta) e mais alguns outros que não vou colocar aqui porque não tive tempo de pesquisar os modelos de negócios de todos.

No segundo temos o Signal, o Silence (meio limitado por depender de MMS/SMS, mas com boa proposta de privacidade) e o Session.

Privacidade para jornalistas, ativistas etc.

Infelizmente temos visto nos últimos anos a intensificação de violência contra a humanidade vinda de governos e corporações até mesmo em países democráticos.

Manter uma linha de comunicação segura, principalmente anônima, se torna vital.

Até poucos anos tínhamos alguns aplicativos ponto a ponto (que não armazenavam nenhum dado em servidores na nuvem) e anônimos além de privados e por anônimos estamos falando em não guardar nosso email, nome, telefone, com quem falamos ou de quem recebemos mensagens.

Muitos deles acabaram por ser descontinuados e outros não me sinto seguro de indicar.

Felizmente essa semana fiquei sabendo por um contato de um novo sistema que me pareceu bem promissor, mas está sendo pouquíssimo comentado, o Session, que já citei na sessão “Critérios”.

Claro que ele é um pouco mais chato de configurar e, muito embora possa ser usado para comunicação em geral, como o próprio Signal de onde ele foi desenvolvido, meio árido já que temos que ir acrescentando contato a contato com suas chaves numéricas criptográficas.

Vou deixar os detalhes de fora por ora e vou continuar testando e de olho para o caso de aparecer algo contrário a ele, mas por enquanto me parece uma ótima indicação para quem atua em áreas mais perigosas.

Referências

Photo by Tim Mossholder on Unsplash

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